Dona Ruth, uma história de vida dedicada à educação e saúde

FOTO 1

Ela é exemplo de dedicação à educação e saúde. Ruth Gouvea de Bundesen, 92 anos de uma história dedicada à formação de pessoal qualificado para atuar na área da saúde.  Dona Ruth iniciou a carreira na educação geral, fundamental e média permanecendo na função por oito anos até que decidiu que sua vocação era Educação em Enfermagem.

Formada em Enfermagem pela USP – Universidade de São Paulo, a profissional atua como diretora Centro de Formação de Recursos Humanos – CEFORH – de Pariquera-Açu, administrado pelo CONSAÚDE, Consórcio Intermunicipal de Saúde do Vale do Ribeira e Litoral Sul. No entanto, a história de dona Ruth vai muito além das pequenas cidades do Vale do Ribeira.

Como Dona Ruth costuma dizer, “saúde e educação sempre foram integradas. Não é possível ter saúde sem o conhecimento de como cuidar”. Na direção do CEFORH desde a inauguração, em 1971, Dona Ruth tem um currículo repleto de experiências nos campos da saúde e educação. Desde o início da vida profissional até o ingresso na instituição, foram quase 30 anos. Tudo começou na década de 40, período em que ela trabalhou por mais de uma década como professora e diretora de uma escola de Ensino Fundamental e Médio, vinculada à Secretaria Estadual de Educação de São Paulo. Mas, nessa época, a vocação à saúde já se manifestava. “Quando era diretora, fazia horta, providenciava atendimento médico ambulatorial e verificava se as crianças sofriam de verminose. Meu pai me ensinou que o indivíduo tem direito a ter saúde”, recorda. Depois dos anos dedicados à Educação, Dona Ruth foi se dedicar à Enfermagem. Com bolsa de estudos na Universidade de São Paulo, ela cursou a graduação em regime de internato, durante quatro anos.

Na ocasião da formatura, em 1953, ela foi cedida à Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo. A primeira atuação na área da Saúde Pública aconteceu no distrito de Motuca, em Araraquara, no âmbito do extinto Serviço Especial de Saúde Pública (1942-1960). “Meu trabalho nessa região chamou atenção das autoridades de saúde e visitantes pela redução da mortalidade infantil, controle de parteiras empíricas e projetos de melhoria de vida dos habitantes, com estímulo a organização da comunidade, projeto de hortas domésticas, apicultura, plantação de cítricos, controle da saúva, criação de coelhos, tratamento domiciliar da água, entre outras ações”, conta a diretora do CEFORH.

A ação em Motuca chamou a atenção de organismos internacionais. Em julho de 1956, um representante da Organização Mundial da Saúde (OMS) de Washington (EUA) foi a São Paulo conhecer o trabalho e incentivou Dona Ruth a estudar nos Estados Unidos. Em setembro daquele ano, ela iniciou o curso de Saúde Pública na Universidade de Minnesota, no Norte dos EUA. “Entre os visitantes estiveram a Reitora Dra. Maryon Murphy e a Coordenadora de fieldwork da Faculdade de Minnesota/USA, Professora Virginia Field e o Diretor Regional da Organização Panamericana da Saúde para as Américas, Dr. Sopper . As duas primeiras me convidaram para pertencer ao seu quadro de alunos e o Dr. Sopper, ofereceu-me uma bolsa de estudos para garantir minha manutenção nos Estados Unidos para que pudesse realizar o Curso de Bacharel de Ciências em Saúde Pública, pois não havia nessa época faculdade dessa especialidade no Brasil”, lembra Dona Ruth.

Após a experiência internacional, Dona Ruth retomou o trabalho em Motuca. O governo da época suspendeu os cargos comissionados e ela, antes cedida à Secretaria de Saúde, foi obrigada a voltar para a Secretaria de Educação. Porém, um encontro com o diretor do Hospital das Clínicas de São Paulo daquele período a trouxe de volta para a área da Saúde. No hospital, ela desenvolveu um programa de Educação Sanitária nos ambulatórios. O HC atendia na época 17.000 casos de desidratação infantil com alta mortalidade. “Nesse programa, foi feito uma intensiva campanha nos ambulatórios, no Hospital, pela Rede Tupi de Televisão que se iniciava nesta época no Brasil e houve muita difusão na mídia em geral. Nessa mesma época, fui convidada a organizar nos fins de semana um Centro de Saúde Específico para a Fazenda Empyreo em Leme/SP, propriedade do Magnata Ciccillo Matarazzo, patrocinador de artes e medicina e que providenciava transporte aéreo nos fins de semana do Aeroporto de Cumbica à Fazenda nas tardes de sextas-feiras com retorno às segundas-feiras”, contou.

Quando estava há oito meses na função, ao enviar o relatório trimestral de bolsista da OMS, Dona Ruth voltou ao exterior, passando mais uma temporada fora do país, dos anos 50 até 1970. Novamente a convite da OMS, ela trabalhou como consultora de formação de pessoal e organização de serviços na Colômbia, Peru, América Central e no Sul dos Estados Unidos. “Meu trabalho era organizar o serviço de saúde e preparar os profissionais. Nessa época, formava trabalhadores do Ensino Médio. Trabalhei mais de 15 (quinze) anos em Organização em Serviços de Saúde, Programas de Bolsas para Profissionais de Curso Superior e Formação de Técnicos de Nível Médio em Saúde Pública. Estando como consultora em Manágua/Nicaraguá, na época do Presidente Somoza, e tendo problemas de adaptação de minha família ao país, pedi demissão, apesar de já ser efetiva no cargo permanente da ONU há 05 (cinco) anos”, relembra Dona Ruth.

 

Ao retornar ao Brasil, em 1970, ela foi aprovada em concurso público, ocupando o cargo de chefe de enfermagem no Hospital Regional Vale do Ribeira (HRVR), em Pariquera-Açu. “Quando cheguei à unidade, quase voltei. Eram 200 leitos, mas não havia enfermeira, auxiliar de enfermagem e técnicos. O índice de mortes era alto”, relata.

Para reverter este cenário de caos, Dona Ruth fez uma análise minuciosa da situação do hospital, bem como estendeu o levantamento para fora dos muros da unidade, por todo o Vale do Ribeira. Através de uma parceria com pesquisadores do Grupo Rondon, vinculado na época à USP, ela investigou as condições de vida da população urbana e rural e constatou que o baixo desenvolvimento econômico, aliado à falta de assistência adequada, contribuíam para os altos índices de doenças como malária, esquistossomose, leishmaniose, hanseníase e tuberculose. O trabalho de Dona Ruth fez com que o então governador do estado Laudo Natel, em visita à unidade hospitalar, assinasse no dia 13 de agosto de 1971 o Decreto Estadual nº 52.701, criando a Escola de Auxiliar de Enfermagem de Pariquera-Açu, que mais tarde, em 1996, se transformaria no CEFORH. A instituição foi inaugurada em um prédio anexo ao HRVR (atual Hospital Regional Dr. Leopoldo Bevilacqua), onde antes funcionava uma carpintaria que se dedicava, principalmente, à confecção em série de caixões para os pacientes que morriam na unidade. “No início da segunda gestão do governador Natel, havia grande interesse em melhorar o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Vale. Em uma visita à unidade, ele tomou conhecimento do nosso inquérito e perguntou o que precisava ser feito para melhorar a situação e eu disse que precisávamos de uma instituição que formasse pessoal qualificado. Ele mandou buscar uma folha de papel e assinou o decreto”, recorda. Começava assim a sua história com o Centro Formador de Recursos Humanos.

Dona Ruth assumiu a direção da escola, em 1971. Em abril de 1972 iniciou- se a primeira turma de alunos e a duração dos cursos era de dois anos. Dona Ruth lembra em dessa época: “Em dezembro de 1973 estava terminada a primeira turma de Auxiliares de Enfermagem, sendo que um desses alunos é hoje o Sr. José Antônio Antosczezem, atual Diretor-Superintendente do CONSAÚDE. Destaco ainda alunos que prosseguiram os estudos e hoje são médicos, advogados, enfermeiros, professores. Há mais de 40 anos à frente da instituição, Dona Ruth se orgulha da instituição. “Nossa Escola ganhou todos os prêmios nacionais e internacionais oferecidos a Escolas Profissionais de Ensino Médio em Saúde, entre eles Prêmio Unesco, Abese/Coren, Troféu Maria Thereza Ferraz de Barros Pimentel/Rotary Club, e hoje nos preparamos para deixá-la querendo que signifique um marco positivo aos futuros trabalhadores de Saúde do SUS desta região”, afirma Dona Ruth, ciente do trabalho reconhecido.

 

Dona Ruth não perdeu nenhuma oportunidade. Durante o trabalho no Vale do Ribeira e vendo a presença de plantas medicinais da Mata Atlântica, ela quis estudar fitoterapia. Ganhou uma bolsa para a Escola de Tratamento Naturais de Novo México e para a Escola de Herbal Medicine de Tewkesbury England, onde estudou por um ano. A força de vontade e a dedicação desta mulher ajudaram a tornar o Hospital de Pariquera-Açu uma referência em saúde. Em 1970 eram apenas seis médicos efetivos e estagiários  vindos do Rio de Janeiro, e que vinham nos finais de semana dar plantões, não havia Enfermeiras e nem técnicos e ou auxiliares de nenhuma área da Saúde. Hoje em dia, com uma trajetória que reúne educação e saúde e uma visão de futuro, o Hospital Regional Dr. Leopoldo Bevilacqua conta com uma equipe de Médicos, Enfermeiros, Técnicos de Enfermagem e Auxiliares. Dona Ruth comemora o resultado: “Em grande parte graças ao magnífico trabalho que os formandos da Escola realizaram e ainda realizam, chegando a elevar em certas épocas o hospital a um dos melhores hospitais públicos do Estado de São Paulo”, finalizou.